Digno é o Cordeiro Imolado, Ap.5,12

quinta-feira, 15 de março de 2012

Reflexão litúrgica

             Liturgia e Vocação

Geralmente nos encontros de formação litúrgica somos surpreendidos com variadas perguntas, as vezes fora de contexto, mas que não podem deixar de ser respondidas. Elas muitas vezes dizem respeito às dúvidas e anseios que muitos leigos tem em relação a vida celebrativa, ainda no tom de pode e não pode, deve ou não deve. Existe porém como já dissemos que na liturgia não existe achismos ou improvizações, tudo é bem definido e ordenado. Repasso a vocês uma belíssima reflexão sobre liturgia e vocação do meu amigo e professor  *Frei José Ariovaldo da Silva, então professor de nosso mestrado.


1. O que é liturgia? Segundo o Pequeno Di­cionário da Língua Portuguesa, liturgia é: "Complexo de cerimônias eclesiásticas; rito". Mas, se formos analisar etimologicamente a pa­lavra (do grego: leitl de laós = povo + ourgía/­de ergon = ação, dá liturgia), descobriremos que ela significa: "ação, serviço que se presta ao povo, ao público, à coletividade, à comuni­dade, serviço público, serviço fraterno". E aí já vemos que liturgia é bem mais do que pura e simplesmente "rito" ou "cerimônia eclesiásti­ca". É servir. É serviço. Liturgo é aquele que ser­ve, que ama, que se doa pelo bem dos de­mais. . .

2. Sabemos que não foi em primeiro lugar para fazer "cerimônias" no deserto que o povo de Israel foi libertado da escravidão do Egito. O povo foi libertado do Egito para, no deserto, es­cutar a voz de Deus, isto é, aprender a fazer como Deus faz (= amar!) e ser fiel ao seu amor. Veja a respeito o que dizem os profetas: Amós 6, 21-25; Isaías 1,11-17; Jeremias 7,22-23. Não foi em primeiro lugar para "oferecer sacrifícios" (culto ritual) que Deus chamou o ser humano. Deus o chamou (vocação!) para um culto muito maior. Deus o chamou para cultivar (culto!) aquilo que Deus é: amor, serviço, doação, litur­gia. Esta é a vocação do homem: ser liturgo (= serviçal). E só assim é que o homem será feliz, realizado, porque só assim o homem se fará "homem de Deus" (cf. Jr 7,23).

3. Não foi isso que Jesus Cristo fez? Ao má­ximo! Radicalmente! Jesus se doou totalmente. Fazendo em tudo a vontade do Pai, serviu até o fim ao ser humano. E o máximo de seu serviço (li­turgia) ao Pai e ao Homem se dá na Cruz, onde realmente acontece a máxima entrega. Ofere­ceu assim um "único sacrifício", um único cul­to agradável ao Pai, o único culto (serviço) que foi capaz de ligar novamente o Homem com Deus (of. Hb 10,4-14). Por que? Porque es­teve até o fim no cultivo (culto) da vontade do Pai (of. Jo 4,34; Lc 2,49; 4,1-13) e do serviço ao homem (of. Mc 10,45; Lc 22,27; Jo 13,15ss). Por­isso ele vive e é exaltado como Senhor (of. f1 2,5-11). Cristo aparece, pois, como Liturgo por excelência, não fazendo "ritos" e "cerimônias" no templo, mas oferecendo-se a si mesmo, doando-se até a morte e morte de Cruz em res­gaste de uma multidão. Nele cumpre-se a su­prema vocação do homem: liturgia, serviço. Nele e por ele que vive em nós (cf. Gl 2,20), cumpre-se nossa única vocação (chamado) que nos tornará felizes e realizados: liturgia no sen­tido mais originário da palavra.

4. Lembro-me daquela palavra de Paulo aos romanos, falando da verdadeira religião. Qual é a verdadeira religião? Paulo responde: "Que apresenteis vossos corpos como hóstia viva, santa e agradável a Deus, à maneira de um cul­to espiritual. Não vos acomodeis a este mundo, mas reformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que saibais aquilatar qual é a von­tade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito" (Rm 12,1-2; cf. F1 2,1-11; Ef 5,1-2; Tg 1,27). Aliás, na própria Liturgia cele­brada (Eucaristia), onde Cristo perpetua a sua doação total, nós dizemos: "Que ele faça de nós uma oferenda perfeita. . ." (Oração Eu­carística III). Ou: "que. . . nos tornemos em Cristo um sacrifício vivo.. ." (Oração Eucarística IV).

5. Ora, a vocação religiosa: o que é? Doa­ção de si a serviço da comunidade humana. Ninguém torna-se religioso para si! A pessoa coloca todas as suas potencialidades a serviço de uma multidão. "Oferenda perfeita". "Sa­crifício vivo". Liturgia viva! Vocação religiosa: possibilidade da máxima vivência litúrgica! Culto realmente agradável ao Pai. Destes ado­radores é que o Pai quer...

6. E a Missa, como é que fica? Não devemos então fazer "cerimônias" e "ritos"?... O caso é que a Missa não é pura e simplesmente "ceri­mônia", "rito". Ela, no rito é muito mais: é pre­sença do Liturgo Cristo. "Fazei isto em memó­ria de mim", diz o Liturgo. "Isto" o quê? Este ri­to! Que rito? Esta ceia! Este pão e este vinho! Aí proclamareis a minha presença viva doando-­me como "Pão que alimenta e que dá vida" e como "Vinho que. . . salva e dá coragem". Por­tanto: a Missa, mais do que pura e simplesmen­te "rito", é, no rito, o lugar da presença máxima da vocação do homem realizada em Cristo como doação-serviço-liturgia (= Redenção/Li­bertação). Conseqüentemente é na Liturgia eu­carística (serviço atual de Cristo ao homem) que a nossa vocação cristã (litúrgica) encontra sua máxima expressão. . . É ali que sempre de novo a liturgia do homem se encontra com a Liturgia de Deus. A vocação do homem se encontra com o chamado salvífico de Deus proclamando ao mundo que a morte foi vencida pela Vida.

* Artigo publicado na Revista de Liturgia, n. 60, nov.dez , ano 1983,.p.22
Qual a ligação que existe entre Liturgia e Vocação?
Como celebrar na Liturgia as diversas vocações que existem na Igreja?
É possível viver uma vocação sem viver profundamente a Liturgia? 




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